
Especialistas, representantes do governo federal, organismos internacionais e sociedade civil participaram do seminário internacional“Sistemas Alimentares e Clima: por uma transição justa e sustentável”, realizado em Brasília no dia 24 de agosto, pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da USP.
O evento (disponível no perfil do Centro de Excelência no YouTube) ocorreu no âmbito do projeto InovaSAN, executado pelo Centro de Excelência contra a Fome do WFP no Brasil, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC).
O encontro reuniu pesquisadores e gestores públicos para discutir como os sistemas alimentares podem contribuir simultaneamente para o combate à fome, a promoção da segurança alimentar e nutricional e o enfrentamento das mudanças climáticas.
Sistemas alimentares
Os sistemas alimentares englobam todas as etapas relacionadas aos alimentos, desde a produção, processamento, transporte e comercialização até o consumo e o descarte. Durante o seminário, os participantes destacaram que a transformação desses sistemas é fundamental para tornar a produção e o acesso aos alimentos mais saudáveis, inclusivos, resilientes e ambientalmente sustentáveis.
A transição envolve políticas públicas integradas, fortalecimento da agricultura familiar, redução das desigualdades, valorização dos territórios e ampliação da cooperação entre diferentes setores da sociedade.
Seminário
A abertura do evento contou com a participação de autoridades como a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Lilian Rahal; a chefe de gabinete da ABC, Andréia Rigueira; o diretor do Centro de Excelência contra a Fome do WFP no Brasil, Daniel Balaban; o titular da Cátedra Josué de Castro, Arilson Favareto; o representante da FAO no Brasil, Jorge Mesa, e a presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Recine.
Ao abrir o seminário, Daniel Balaban destacou a importância de fortalecer sistemas alimentares adaptados às realidades locais. “A alimentação escolar demonstra que é possível construir sistemas alimentares mais sustentáveis quando os países priorizam a compra de alimentos produzidos localmente, respeitam seus hábitos alimentares e fortalecem agricultores, economias e comunidades locais. Essa é uma estratégia que gera desenvolvimento, promove segurança alimentar e amplia a resiliência diante dos desafios climáticos”, afirmou.
Arilson Favareto ressaltou que a agenda climática e a agenda alimentar precisam caminhar juntas. “A ciência tem demonstrado que não será possível enfrentar a crise climática sem promover mudanças profundas na forma como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos. A transição dos sistemas alimentares deve ser justa, levando em conta as desigualdades sociais e as diferentes capacidades dos territórios para implementar transformações”, disse.
Mesa 1
A mesa científica foi mediada por Favareto e reuniu a pesquisadora Inês Rugani Ribeiro de Castro, da UERJ, a professora Aline Martins de Carvalho, da USP, e o professor Ricardo Abramovay, referência internacional em sustentabilidade e sistemas alimentares.
Os especialistas discutiram lacunas do conhecimento científico, mecanismos de monitoramento e o papel das políticas públicas para acelerar mudanças capazes de reduzir impactos ambientais sem comprometer a segurança alimentar.
Durante os debates, Ricardo Abramovay chamou atenção para a necessidade de superar modelos de produção e consumo que concentram riscos ambientais e sociais. “A transformação dos sistemas alimentares exige diversificação produtiva, valorização da biodiversidade e incentivos capazes de alinhar os objetivos econômicos aos limites ecológicos do planeta. Não se trata apenas de produzir mais alimentos, mas de produzir melhor e com maior justiça social”, afirmou.
Mesa 2
A segunda mesa reuniu representantes de diferentes órgãos do governo federal para discutir a implementação de políticas públicas voltadas à relação entre sistemas alimentares e clima.
Participaram, entre outros, Lilian Rahal, pelo MDS; Aloísio Melo, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Camila Alves Rodrigues, do Ministério do Desenvolvimento Agrário; além da presidente do Consea, Elisabetta Recine. As discussões abordaram temas como agricultura familiar, segurança alimentar, planos climáticos e estratégias para fortalecer a atuação dos municípios.
Para Lilian Rahal, a construção de políticas públicas integradas é essencial para enfrentar os desafios atuais. “A garantia do direito humano à alimentação adequada passa necessariamente pela construção de sistemas alimentares sustentáveis. Precisamos aproximar as agendas de segurança alimentar, desenvolvimento social, agricultura, meio ambiente e clima para que as respostas sejam efetivas e alcancem as populações mais vulneráveis”, destacou.
Representando a sociedade civil, Elisabetta Recine enfatizou a importância da participação social no processo de transformação. “Uma transição justa dos sistemas alimentares depende do diálogo permanente entre governos, academia, produtores e sociedade civil. A construção coletiva das políticas públicas é fundamental para que as soluções sejam inclusivas, democráticas e duradouras”, afirmou.
Cursos
Além dos debates, o seminário oficializou o lançamento de três modalidades de cursos sobre Sistemas Alimentares e Clima realizados em parceria com a Cátedra Josué de Castro, o MDS e a ABC, no âmbito do Projeto inovaSAN. Todos os cursos estarão disponíveis na plataforma Capacita MDS a partir de setembro de 2026.
O primeiro curso, aberto ao público geral e disponível em português com legendas em inglês e espanhol, apresentará os fundamentos da relação entre sistemas alimentares e clima, bem como os principais desafios e caminhos para uma transição justa e sustentável.
O segundo curso será destinado a gestores e técnicos municipais da Estratégia Alimenta Cidades. A formação ocorrerá ao vivo, com encontros quinzenais que combinarão conteúdo teórico, atividades orientadas e troca de experiências para apoiar a construção de estratégias territoriais de transição dos sistemas alimentares.
As inscrições estarão disponíveis a partir de 31 de agosto de 2026 nas páginas do Centro de Excelência contra a Fome e do Capacita MDS.
Também será oferecido o curso internacional “Mobilização internacional para aumentar a convergência e coerência entre as agendas de sistemas alimentares e clima”, voltado a gestores públicos internacionais, organismos internacionais e organizações da sociedade civil.
A iniciativa buscará fortalecer o intercâmbio de experiências, desafios e estratégias para ampliar a convergência entre as agendas climática e alimentar em diferentes países.
Políticas públicas
A iniciativa foi construída a partir do entendimento de que transformar os sistemas alimentares exige fortalecer capacidades, aproximar diferentes setores e converter conhecimento em políticas públicas e ações concretas.
Segundo Gisele Bortolini, coordenadora-geral de Promoção da Alimentação Saudável do MDS e coordenadora do inovaSAN, os cursos contribuirão tanto para aprofundar a compreensão da relação entre sistemas alimentares e clima e apoiar a formulação de políticas públicas, quanto para fortalecer a cooperação internacional e ampliar os compromissos globais com a construção de sistemas alimentares mais sustentáveis em todas as etapas, da produção ao consumo.




