
Entre os dias 8 e 25 de setembro, uma missão do Centro de Excelência contra a Fome do WFP no Brasil esteve em Pombal, na Paraíba, para mapear tecnologias sociais e iniciativas inovadoras de resiliência climática que possam subsidiar ações do Projeto HUB de Inovação Global para Alimentação Escolar Regenerativa, realizado em parceria com a Fundação Rockefeller.
A missão foi concebida como um intercâmbio de conhecimentos e boas práticas com o Centro de Ciências e Tecnologia Agroalimentar (CCTA) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) no campus de Pombal.
Sob a orientação do pesquisador e professor Dr. Luderlândio de Andrade Silva, a equipe participou de um treinamento prático de construção de uma cisterna junto com a equipe da UFCG na Fazenda Experimental do CCTA.
O passo a passo ensinado corresponde a um modelo de baixo custo, adaptável para diversos contextos e utilizado no semiárido brasileiro, onde captar e armazenar água é fundamental para a produção de alimentos e para garantir a segurança alimentar e nutricional das famílias.
“Da mesma forma que a cisterna veio sanar a questão da falta de água no semiárido no Brasil, ela pode ajudar as pessoas em outros países com contexto similar a se manterem na zona rural. Na minha experiência em países da África essa tecnologia se encaixa muito bem. A cisterna é uma tecnologia de baixo custo, possível de ser replicada e que integra toda a comunidade no momento da construção, armazenando água de excelente qualidade para os meses de seca”, afirma Luderlândio.
A cisterna construída durante o treinamento ficará para uso da fazenda universitária, que realiza pesquisas nas áreas de solos, cultivos diversos (como frutas e forrageiras) e sistemas agroindustriais.
O projeto Alimentação Escolar Regenerativa busca transformar escolas em polos de produção de alimentos conectados à agricultura familiar. Ao mapear soluções desenvolvidas no semiárido brasileiro, o Centro de Excelência procura identificar tecnologias acessíveis que possam ser adaptadas a outros contextos com climas similares.
Quintais Produtivos
Ao longo da missão, a equipe também visitou o quilombo Os Rufinos, em Pombal, onde foi desenvolvido o projeto Fortalecimento dos Quintais Produtivos, criado para assegurar segurança alimentar e fonte de renda sustentável, fortalecendo a agricultura familiar, a autonomia feminina e a economia local.
A iniciativa foi implementada pelo CCTA/UFCG e pelo Instituto Federal da Paraíba (IFPB), com financiamento do Governo da Paraíba por meio da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Humano (SEDH-PB).
Entre final de 2025 e meados deste ano, o projeto criou 50 quintais produtivos com base em princípios agroecológicos, geridos por mulheres da Associação Quilombola Os Rufinos.
O projeto tem três objetivos centrais: capacitação, com oficinas de agroecologia, manejo do solo, compostagem, gestão e comercialização; estruturação dos quintais, com kits de sementes e mudas, ferramentas manuais e irrigação por gotejamento de baixo custo; e apoio à produção, com acompanhamento técnico contínuo e duas feiras comunitárias para escoamento dos produtos.
Como resultado, as famílias do território têm ampliado a produção com práticas orgânicas e naturais, garantindo alimentos saudáveis para o consumo da comunidade e para a venda no comércio local e a outras famílias quilombolas.
Giudenia Silva de Souza, de 30 anos, nasceu e cresceu no quilombo. Casada com um quilombola de Os Rufinos e mãe de dois filhos, com a assistência técnica e os materiais fornecidos pelo projeto ela tem produzido hortaliças que vende na cidade.
“Virou uma renda extra para nossa família. Estamos pensando em ampliar o cultivo e no futuro ficarmos trabalhando só com os nossos roçados em vez de trabalhar na terra de outras pessoas”, diz.
Entre janeiro e abril de 2026, professores da UFCG fizeram acompanhamento semanal da implementação do projeto junto às mulheres do quilombo. Em uma pesquisa para identificar quais culturas queriam trabalhar, a maioria optou por frutas e hortaliças, que têm ciclos mais curtos de produção.
“Com duas semanas, a gente tinha alface, cebolinha, salsinha e coentro. Quando a vizinha via outra levando produção para a feira e ganhando dinheiro, pedia para entrar também. Aí o programa deslanchou”, diz Alfredina Santos, professora e pesquisadora da UFCG.
Atualmente produz-se no quilombo desde banana e macaxeira a tomate cereja e tamarindo, galinha caipira e mel. “Hoje temos mulheres no quilombo que viraram empreendedoras com CNPJ. A comunidade não é a mesma de oito meses atrás”, diz Alfredina Santos.




